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comportamento - MENOPAUSA X SEXO

01/06/2026

Quando um casal na meia-idade começa a se afastar sexualmente, é comum que a menopausa apareça como explicação principal. Como se a mulher tivesse parado de menstruar e, junto com isso, tivesse encerrado também o desejo, o prazer e a intimidade.

Mas será que é mesmo a menopausa que acaba com a vida sexual de um casal?

É claro que a menopausa provoca mudanças reais. A queda hormonal pode causar secura vaginal, dor na relação, diminuição da lubrificação, alterações de sono, de humor e, em algumas mulheres, redução da libido. Tudo isso merece atenção, cuidado médico e acolhimento. Nenhuma mulher deveria normalizar dor ou desconforto para manter as aparências de felicidade conjugal nem tampouco por medo de ser traída.

O problema é quando a menopausa vira a única culpada.

Muitas vezes, quando essa mulher chega à menopausa, ela já está distante do parceiro há anos. Antes disso, vieram a exaustão da maternidade, as noites mal dormidas, a sobrecarga mental, as cobranças do trabalho, os problemas financeiros, os ressentimentos acumulados, a falta de conversa, a falta de parceria e a perda gradual da intimidade.

O desejo raramente desaparece de um dia para o outro. Ele vai se recolhendo aos poucos. Um toque a menos. Uma conversa a menos. Um cuidado a menos. Um olhar a menos. Até que o casal continua dividindo a casa, a família, a rotina, mas já não divide presença.

Então chega a menopausa e ela leva a culpa. Mas, em muitos casos, apenas revela uma distância que já existia. E há outro ponto pouco discutido: não é só o corpo da mulher que envelhece. Ela entrou na menopausa. Ele também envelheceu. Mas só o corpo dela está sempre sob escrutínio. 

O assunto é sempre a falta de libido dela, a secura dela, os hormônios dela, o humor dela. Pouco se fala do homem que também pode estar mais cansado, mais inseguro, com menos disposição, com dificuldade de ereção ou com queda gradual de testosterona. A sexualidade masculina também muda, mas muitas vezes é escondida pelo silêncio, pela vergonha ou pela ideia ultrapassada de que o homem deve estar sempre pronto para transar.

Quando ele falha, o assunto vira piada interna ou segredo. Quando ela recusa, vira acusação.

É mais fácil dizer “depois da menopausa ela mudou” do que admitir que os dois mudaram. Mudou o corpo dela. Mudou o corpo dele. Mudou a rotina, o sono, a energia, as prioridades e a forma de estar no mundo. O que nem sempre muda é a maneira como o casal conversa sobre sexo: pouco, mal, com culpa, cobrança ou ressentimento.

A maturidade pede outro vocabulário. Menos performance, mais presença. Menos cobrança, mais escuta. Menos comparação com o corpo dos 30 anos, mais curiosidade pelo corpo de agora. Menos culpa, mais cuidado.

Sexo na maturidade pode continuar existindo, mas talvez precise ser reinventado. Pode ser menos automático e mais construído. Menos urgente e mais íntimo. Menos sobre frequência e mais sobre conexão.

Para isso, a intimidade precisa continuar viva mesmo quando o sexo não está acontecendo. Intimidade é toque sem cobrança, conversa sem julgamento, parceria na rotina, cuidado mútuo, admiração, bom humor, escuta e carinho. É não transformar o outro apenas em função: mãe, pai, avó, avô, provedor, cuidadora, pagadores de contas ou organizadores da casa.

Quando existe parceria verdadeira, a menopausa não precisa ser o fim da vida sexual. Pode ser uma transição. Pode ser adaptação. Pode até ser recomeço. Com conversa, tratamento quando necessário, paciência e honestidade.

Talvez a pergunta não seja apenas: “o que aconteceu com o desejo dela?”. Talvez seja: “o que aconteceu com o nosso desejo?”. Quando deixamos de nos procurar? Quando paramos de nos cuidar? Quando o sexo virou obrigação, cobrança ou silêncio?

A menopausa pode explicar sintomas. Mas não explica sozinha o abandono afetivo.

Antes de colocar a mulher madura no banco dos réus, talvez seja preciso olhar para o casal como um todo, para a história inteira, para os anos de parceria ou de falta dela.  Porque uma mulher não perde o desejo apenas porque envelheceu. Muitas vezes, ela perde o desejo porque passou anos sem se sentir vista, desejada, priorizada, ouvida, acolhida e cuidada.

No fim, a maturidade sexual talvez dependa menos de juventude e mais de vínculo. Menos de performance e mais de presença. Por isso, quando um casal se encontra nessa encruzilhada, a pergunta a ser feita é mais ou menos: Como a gente chegou neste ponto? Ainda estamos dispostos a nos reencontrar? 

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